Texto de Fernando Canzian, Folha.
Passaporte para o aborrecimento
Pouco antes da virada do ano, comentei em O Brasil que não vai para frente como o setor público brasileiro emperra, com um misto de incompetência e descaso, a vida dos coitados dos contribuintes que o sustenta.
Hoje, como não poderia deixar de ser, novo aborrecimento. Dessa vez maior do que o outro, quando mais uma vez o setor público atravessou meu caminho.
Fui renovar meu passaporte, Via Crucis a que está submetido um número cada vez maior de brasileiros. Para começo de conversa, fiz o agendamento há meses, pois não havia data disponível anterior a ontem. Esperei. No período, perdi duas oportunidades de viagens a trabalho pela falta do documento.
Ao chegar no local de atendimento ontem, dentro de um shopping, com toda a documentação e meia hora antes do horário, surpresa:
“Estamos sem sistema. Não há previsão de atendimento por enquanto. O sr. pode me dar o papel do agendamento que o chamaremos pelo nome”, disse um funcionário à porta do escritório da Polícia Federal.
“OK”, respondi resignado e me encaminhei bovinamente para o banco ao lado. Trazia um grosso livro comigo, já esperando o chá de cadeira.
Logo depois, uma fila começou a se formar na porta do escritório da PF. Levantei para ver o que estava acontecendo. Agora, um agente da PF dava orientação diferente da passada havia 30 minutos: era preciso entrar na fila para reagendar o atendimento.
“Qual a razão da fila”, perguntei, “se vocês primeiro disseram que chamariam pelo nome e têm inclusive os papéis de agendamento com vocês?”
“É, mas agora você tem de entrar na fila”, responde rispidamente o agente da PF.
Diante da minha cara aborrecida, mas calada, ele completa:
“Cara feia pra mim é fome”.
Como tinha acabado de comer um pão-de-queijo com café, respondi que não era fome, mas indignação o que sentia com a qualidade do atendimento. Disse que gostaria de escrever sobre aquela desorganização, sobre a demora de meses, e me apresentei como jornalista. O agente sequer quis pegar meu cartão de visitas. Resmungou algo como “jornalista é tudo igual, pior que…” algo que não entendi. Pedi para anotar seu nome e função e argumentei que aquilo não era tratamento adequado.
Depois, quando a poeira assentou, o agente ainda me disse, na frente de todo mundo, que eu devia ter ligado antes e me apresentado como jornalista. Pois ele pessoalmente poderia ter resolvido o problema do meu passaporte em questão de dias.
Fiquei pensando no que os outros, interessados em um passaporte, estariam pensando agora. Respondi a ele que não queria privilégio algum, mas um atendimento compatível com a carga de impostos que sustenta o setor público brasileiro.
Uma chateação só. Tem vezes que dá vontade de fugir do Brasil. Mas como é preciso um passaporte para isso, reagendei um novo e certamente infeliz encontro com o setor público para esta semana.













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